No último episódio do Void Podcast, tocamos no assunto “ética no desenvolvimento de software” (em especial por parte de consultorias e fornecedores de produtos e serviços de software). Relacionamos a falta de ética como um dos grandes óbices para a reversão de um quadro de brownfield para greenfield.

Uma pequenina discussão foi iniciada nos comentários do episódio, onde um significativo depoimento foi colocado pelo Daniel Yokoyama. Embora quase que a totalidade das pessoas com quem converso a respeito sejam descrentes com relação a ética aplicada, gostaria de discorrer sucintamente sobre o tema.

Algumas (pouquíssimas, mesmo!) palavras sobre ensino de ética e a história recente do Brasil

Fui criado no longínquo século XX onde, por incrível que pareça, as empresas se preocupavam de fato em satisfazer seus clientes. Também peguei a época em que disciplinas como OSPB e EMC eram obrigatórias em qualquer escola.

Puxa, talvez você tenha pouca idade e desconheça essas siglas. Vamos lá:

OSPB (Organização Social e Política Brasileira) foi uma disciplina que, de acordo com o Decreto Lei 869/68, tornou-se obrigatória no currículo escolar brasileiro a partir de 1969, juntamente com a disciplina de Educação Moral e Cívica (EMC). Ambas foram adotadas em substituição às matérias de Filosofia e Sociologia e ficaram caracterizadas pela transmissão da ideologia do regime autoritário ao exaltar o nacionalismo e o civismo dos alunos e privilegiar o ensino de informações factuais em detrimento da reflexão e da análise. O contexto da época incluía a decretação do AI5, desde 1968, e o início dos ‘anos de chumbo’ – a fase mais repressiva do regime militar cujo ‘slogan’ mais conhecido era ‘Brasil, ame-o ou deixe-o’.

Dessa forma, as duas matérias foram condenadas pelos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN), estabelecidos pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) de 1996, por terem sido impregnadas de um ‘caráter negativo de doutrinação’.

Julgue esse período como quiser, pois não é foco deste post ponderar sobre o tema. O que gostaria de ressaltar é que dentre todo o conteúdo passado nessas matérias o que mais ficou marcado pra mim foi justamente o que tratava a ética. Fora a primeira ocasião em minha vida onde apresentaram tal assunto.

Tenho minhas dúvidas se, no “mundo politicamente correto de hoje”, algum conteúdo sobre ética é passado nas escolas. E principalmente, esse conteúdo é passado a tempo? Ou seja, estamos contribuindo de forma adequada para a formação do caráter de nossas crianças?

Se a pergunta “Qual a conduta correta para um indivíduo em sociedade?” é muito complexa, talvez você consiga me responder…

… Qual a conduta correta para profissionais de TI?

O desenho abaixo ilustra três facetas da ética no dia a dia de um profissional de TI.

Etica na TI

Mesmo sendo a ética alvo de longas discussões, gostaria de chamar sua atenção para uma definição de Código de Ética em Engenharia de Software resultante dos esforços de uma equipe de trabalho multinacional liderada pela IEEE/ACM.

Existe uma versão longa deste código, contudo, acho suficiente destacar o seguinte resumo:

  1. Público. Engenheiros de Software devem atuar consistentemente com os interesses públicos.
  2. Clientes e empregados. Engenheiros de Software devem atuar de modo a atender os melhores interesses dos seus clientes e empregados, consistentemente com os interesses públicos.
  3. Produto. Engenheiros de Software devem assegurar que seus produtos e modificações relacionadas atendam os melhores padrões profissionais possíveis.
  4. Julgamento. Engenheiros de Software devem manter a integridade e independência nos seus julgamentos profissionais.
  5. Administração. Administradores e líderes de Engenharia de Software devem aderir e promover uma abordagem ética ao gerenciamento do desenvolvimento e manutenção de software.
  6. Profissão. Engenheiros de Software devem desenvolver a integridade e reputação da profissão consistentemente com os interesses do público.
  7. Coleguismo. Engenheiros de Software devem ser justos e dispostos a auxiliar seus colegas.
  8. Identidade. Engenheiros de Software devem participar do aprendizado de suas vidas valorizando a prática da sua profissão e devem promover uma abordagem ética à prática da profissão.

Perceba que, mesmo com a versão resumida do código, após um exercício individual de reflexão, podemos constatar se estamos inseridos em um ambiente ético (ou se estamos chafurdados no brownfield plus, como foi dito no episódio do Void).

Um ponto de vista sobre a ética empresarial

Como mencionei anteriormente, o assunto é extenso, mas acho oportuno trazer aqui um ponto de vista colocado pelo advogado Joaquim Manhães Moreira, autor do livro “Ética na gestão empresarial”:

O único lucro moralmente aceitável é aquele obtido com ética. A moral impõe que a empresa aja com ética em todos os seus relacionamentos, com clientes, fornecedores, competidores e seu mercado, empregados, governo e público em geral.

Ainda dentro de seu pensamento:

  • Uma empresa ética incorre em custos menores do que uma antiética. A empresa ética não faz pagamentos irregulares ou imorais, como subornos, compensações indevidas e outros.

 

  • Por não efetuar subornos, ela consegue colocar em prática uma avaliação de desempenho de suas áreas operacionais, de forma mais precisa do que a empresa antiética. Um exemplo da dificuldade de avaliar o desempenho quando não se age com ética está na possibilidade de aceitação de desculpas de que uma venda não pôde ser realizada, porque o concorrente ofereceu um suborno maior ao cliente.

 

  • O lucro gerado para os acionistas não fica sujeito a contingências futuras, como, por exemplo, condenações por procedimentos indevidos.

 

  • Ao aderir a um código de ética consistente e claro, praticando uma conduta ética, a empresa empresta legitimidade aos seus negócios, envolvendo todos os seus empregados e administradores neste clima de lealdade e dedicação.

 

  • A empresa ética tem o respeito de seus parceiros, fornecedores e clientes, elevando a sua marca e facilitando sua expansão.

 

  • A empresa deve ser responsável por ajudar a melhorar continuamente a sociedade da qual obtém lucro, não somente no aspecto material, mas também abstrato, adotando práticas de ética.

A conclusão é sua 🙂

Fique à vontade para comentar.